Bom e mau, certo e errado. Esses são conceitos que todos nós estamos familiarizados. Mas de onde veio tal concepção de valores e deveres morais? Para responder a essa pergunta, muitos filósofos concordam que se Deus não existir, então esses valores e deveres morais não podem ser objetivos. Em outras palavras, se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos não existem. Já que nós temos um forte senso de moralidade, então podemos, racionalmente, crer que Deus existe. Simples? Nem tanto. Mas vamos explicar esse argumento passo a passo.

O Argumento Moral para a Existência de Deus

A primeira pergunta que devemos responder é: Valores e deveres morais são objetivos ou subjetivos? Por preferência pessoal, usarei os termos “subjetivos” e “relativos” como sinônimos. Mas dependendo do contexto podem significar coisas diferentes.

Por “objetivos” eu quero dizer valores e deveres morais que independem da opinião humana. Em outras palavras, independente das pessoas crerem ou não neles, eles ainda são válidos. Por exemplo, mesmo se houvesse uma sociedade que tivesse sofrido uma lavagem cerebral para crer que torturar pequenos bebês por diversão é algo certo, eles ainda estariam errados.

Ainda mais: por “subjetivos” eu quero dizer valores e deveres morais que são relativos à pessoas e culturas. Ou seja, eles são apenas convenções sociais, sem valor objetivo. Nesse caso, não seria objetivamente errado escravizar afro-descendentes. Seria apenas uma preferência cultural ou individual.

Pode ser uma surpresa, mas realmente não existe nenhuma boa razão para se crer que os valores e deveres morais sejam relativos. O único argumento a favor do relativismo pode ser colocado da seguinte forma:

Premissa 1 – O que se crê ser moral muda de cultura para cultura e de época para época.
Premissa 2 – O que é moral depende do que se crê ser moral.
Conclusão – Portanto, o que é moral muda de cultura para cultura e de época para época.

Esse argumento soa normal, pois apela para o fenômeno observado de que culturas se comportam diferentes. Porém, ele é falacioso: ninguém acreditaria na Premissa 2 a não ser que já aceitasse a conclusão. Ou seja, o argumento é uma petição de princípio, pois pressupõe a conclusão na premissa.

Mais do que isso, dizer que a moral é relativa por causa de diferentes opiniões e interpretações é como dizer que a ciência é relativa só porque existem cientistas evolucionistas e cientistas que acreditam em uma Terra Jovem.

Mas talvez o relativista queira se defender dizendo que é intolerante dizer que a moral de uma cultura é mais correta que a de outra. Cada cultura tem sua moral e isso deve ser respeitado.

Verdade: Cada cultura deve ser respeitada. Porém, esse argumento utiliza uma definição errada de tolerância. Tolerância significa discordar de alguém, mas defender o direito dessa pessoa de se manifestar e se defender. Porém, a partir do momento em que há discórdia, aquele que discorda pressupõe que o outro esteja errado e que sua posição seja falsa. Ou seja, para que haja a verdadeira tolerância, se deve dizer que uma posição é melhor do que a outra.

Mas ainda mais importante: Se a moral é relativa, então o princípio da tolerância não seria ele mesmo relativo? O relativista enfrenta esse problema: Ele não pode apelar para a tolerância sem descartá-la junto.

Mas esse não é o único problema do relativismo moral. Dentre os vários problemas, podemos listar cinco:

  1. O relativismo acaba com a dignidade humana. Se a moral é relativa, nosso senso de dignidade das pessoas torna-se irrelevante.
  2. O relativismo acaba com os direitos humanos. Se a moral é relativa, o que qualifica os direitos humanos como algo bom e correto?
  3. O relativismo acaba em uma anarquia impossível de se viver. O relativista precisa de uma definição de cultura para o julgamento moral. Porém, essa cultura é definida como o que? O Estado? Um grupo religioso? Uma civilização? No fim, a definição terá de ser a de indivíduos que concordam entre si. Mas se for esse o caso, então o relativismo é individual. Nesse caso, quem é você para reclamar que o assassinato é errado? O assassino está apenas fazendo o que acha certo.
  4. O relativista não pode reclamar do problema do mal. Se o relativismo for verdade, então valores morais objetivos não existem. Isso inclui a existência do mal. Porém, se o mal é relativo, então o ateu não pode usar isso como argumento contra a existência de Deus.
  5. O relativismo torna a reforma moral impossível. Se a moral é relativa, então é impossível que haja melhora na moral de uma sociedade. Pessoas como Martin Luther King, Ghandi e Jesus não fizeram com que a sociedade melhorasse. Eles apenas promoveram uma mudança de regras. Mas, em última análise, essas regras nunca foram piores ou melhores que as outras. Uma sociedade que escravize negros não é melhor que uma que liberta: ela apenas têm pessoas com opiniões diferentes.
Se a moral não é relativa, como saber se ela é objetiva?

Mas, se o relativismo é tão frágil, o que podemos dizer para validar a objetividade dos valores e deveres morais?

Em primeiro lugar, podemos destacar que essa é uma crença apropriadamente básica. Uma crença apropriadamente básica é uma crença que é aceita racionalmente mesmo que não haja evidência para ela, e que pode ser aceita com base na experiência. Por exemplo, sua crença de que o mundo externo existe e você não é um cérebro em um pote sendo estimulado por um cientista maluco para crer que o mundo existe é uma crença racional, embora você não tenha evidência para ela. O mesmo vale para a crença de que o passado é real e não foi criado há apenas cinco minutos com a aparência de uma idade. Esses são exemplos comuns de crenças apropriadamente básicas.

É preciso um anulador para se demonstrar que essa crença é falsa. No caso dos valores e deveres morais, nós fazemos julgamentos morais todos os dias. Todos nós sabemos que matar, roubar e trair é errado. Ou ainda mais: Todos nós sabemos que torturar bebês, homossexuais e judeus é algo errado. Não existe nenhuma cultura em toda a história que tenha esperado e acreditado em um herói que tinha como características ser injusto, traidor, assassino, torturador, etc.

Nosso senso de moral objetiva está por toda parte em todo o tempo. Quando vemos a notícia de um assassinato, de um estupro, ou de um político corrupto, nós diretamente fazemos o julgamento de que isso é errado. Do mesmo modo, sabemos que amar crianças, defender o inocente e ajudar um amigo são coisas boas e certas.

Se a moral não é objetiva, o que torna um ato errado? No naturalismo, o ser humano é apenas um monte de células rearranjadas, não diferentes de uma cadeira. Então, dado o ateísmo, qual a diferença entre se quebrar uma cadeira e matar uma pessoa? Fica claro, que há uma diferença fundamental entre ambos: O ser humano tem valor, e direito ao respeito e à dignidade.

Sem que haja um anulador para essas crenças, não há motivo para duvidar. E, como vimos, os dois argumentos dos relativistas falham miseravelmente.

Proposições éticas não correspondem à nada?

Mas talvez o relativista tente fazer um último ataque. Apelando para a teoria da correspondência da verdade (que diz que a verdade é quando uma proposição corresponde a um fato), o relativista pode dizer que proposições éticas não têm a que corresponder. Por exemplo, quando um médico diz ao seu paciente: “Você está com câncer”, se essa proposição corresponder ao fato do paciente estar com câncer, então ela será verdadeira para todo mundo em todo o tempo. Porém, se alguém disser que “matar é errado”, ela corresponde a que? Não há nada na natureza que corresponda a isso. Por isso, enquanto proposições “normais” (por assim dizer) podem ser verdadeiras por corresponder aos fatos da natureza, as proposições éticas devem corresponder apenas à vontade do sujeito. Sendo assim, deve ser algo relativo à vontade do sujeito.

Esse argumento também possui falhas. Em primeiro lugar, devemos concordar que verdade é aquilo que corresponde com a realidade. Porém, há mais um pressuposto nesse argumento. Ele pressupõe o verificacionismo. Como explicado em outro texto, o verificacionismo é a posição que diz que, para uma sentença fazer sentido, ela deve, em princípio, ser verificável pelos cinco sentidos. Porém, isso é auto-contraditório: A sentença “para uma sentença fazer sentido, ela deve, em princípio, ser empiricamente verificável pelos cinco sentidos” não pode ser verificada pelos cinco sentidos.

Além disso, esse argumento parte de um raciocínio circular. Ele pressupõe que a natureza seja tudo o que existe. Porém, o teísta tem uma resposta perfeita: As proposições morais correspondem à natureza de Deus e sua vontade. Sua vontade não é nem arbitrária e nem algo fora dele que ele escolheu. Sua vontade, sua lei moral e os deveres morais são reflexos de sua própria natureza. Deus é o próprio Padrão Moral e o Legislador da Lei Moral.

Por fim, ela nem ao menos começa a se dirigir ao problema: Se proposições éticas correspondem à vontade do sujeito, de onde vem essa vontade? Já que todos possuem um senso de moral objetiva, qual é o fundamento dela? Se não há Deus, com que fundamento se pode dizer que valores e deveres morais objetivos existam? Em outras palavras, se alguém disser que torturar bebês por diversão é errado, o torturador poderia replicar: de acordo com quem?

Como saber que é Deus?

Existem várias formas de argumentar que a moral deve ser fundamentada em uma Entidade que chamamos de Deus:

    1. Os valores e deveres morais não podem ser fundamentados em uma espécie de “contrato social” entre os humanos, pois nós discordamos muito. Nossa discórdia gera contingências com relação aos valores e deveres morais. Portanto, se eles forem objetivos, eles devem ser fundamentados em algo necessário, que é moralmente imutável.
    2. Os deveres morais não são descrições de ações, mas sim prescrições. Porém, prescrições só vêm de interação entre mentes.
    3. O fundamento da moral deva vir de um legislador acima da humanidade, pois foi capaz de colocar essa Lei no coração de todos os humanos.
    4. Em razão de valores morais como “justiça”, “amor”, “amizade” e outros serem características pessoais, esse fundamento deve ser uma pessoa.
    5. Os deveres morais são comandos, e comandos requerem uma vontade à ser realizada. Porém, apenas pessoas têm objetivos.
    6. Esses valores e deveres morais são universais, transcendendo culturas e épocas, então a fonte da moral deve ser transcendente.
    7. Como esse é o Padrão Moral, ele deve ser moralmente perfeito, pois se não fosse, não seria um padrão apropriado ao qual tentamos chegar.

Em suma, esse fundamento da moral deve ser:

— Necessário.
— Moralmente imutável.
— Uma Mente.
— Legislador.
— Acima da humanidade.
— Pessoal.
— Com um objetivo.
— Transcendente.
— Moralmente Perfeito.

Que é o que todo mundo chama de Deus.

Podemos resumir o argumento da seguinte forma:

Premissa 1 – Se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos também não existem.
Premissa 2 – Valores e deveres morais objetivos existem.
Conclusão – Portanto, Deus existe.
A evolução consegue explicar a moral?

Alguns podem retrucar dizendo que a evolução pode funcionar como uma explicação naturalista para explicar nosso sendo de moral como algo bom para a sobrevivência. Nesse caso, teríamos desenvolvido valores e deveres morais para ajudar a espécie a sobreviver.

Há dois problemas aqui: Primeiro, isso explicaria como conhecemos a moral, mas não sua realidade. Se os valores e deveres morais objetivos existem, então é irrelevante como viemos a conhecê-los. Se for dito que são meras ilusões que cremos por causa da evolução, então se comete a falácia genética. Ou seja, se ataca a verdade de algo atacando como se originou.

Em segundo lugar, esse argumento mostra como o naturalismo é auto-contraditório. Se os valores e deveres morais são mentiras criadas para a sobrevivência, então isso demonstra que a evolução não se preocupa com a verdade, mas apenas com a sobrevivência. Se esse é o caso, então as crenças geradas pela evolução não são verdadeiras, mas são apenas úteis para a sobrevivência. E isso inclui a própria crença no naturalismo do naturalista.

Conclusão

O Argumento Moral nos da uma boa razão para crer que Deus existe como o fundamento para os valores e deveres morais objetivos. Deus não escolheu esses valores arbitrariamente e nem escolheu de um padrão fora dele. Os valores e deveres são reflexos da própria natureza de Deus. Mas fica ainda um questionamento: Como Deus pode ser moralmente perfeito, se o amor perfeito requer mais de uma pessoa? Nenhuma religião pode responder a isso, a não ser o cristianismo: Deus é mais do que uma pessoa. Sendo assim, o único Deus que pode ser um fundamento plausível para a moral é o Deus cristão.

Devo frisar que não estou dizendo que ateus não podem ser moralmente bons. Se a moral for objetiva, então é natural que os ateus conheçam valores e deveres morais objetivos. Porém, eles não podem fundamentar em nada.

Concluindo: Se você concorda comigo que torturar pessoas é errado, que intolerância verdadeira é errada, que escravidão é errado, que amar crianças é bom, que auto-sacrifício é bom, que ajudar ao próximo é certo e que amar ao próximo como a ti mesmo é certo, você deve concluir que Deus existe.


Bibliografia

William Lane Craig. Em guarda: Defenda a fé cristã com razão e precisão, São Paulo: Vida Nova, 2011.

J. P. Moreland, Garrett DeWeese. Filosofia concisa: Uma introdução aos principais temas filosóficos, São Paulo: Vida Nova, 2011.

Francis Beckwith, Gregory Koukl. Relativism: Feet Firmly Planted in Mid-Air, Baker Books, 1998 (Edição Kindle, 2011).


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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