Quando se encontra um grupo de ateus atualmente é comum que eles se proclamem como os “pensadores livres”. Os motivos para isso eles deixam claros: Não são presos a instituições, crenças, lideres religiosos, etc. Além disso, dizem eles que são livres por questionar tudo isso. Nascidos em um país de maioria cristã, os neo-ateus gostam de se proclamar como os pensadores livres por terem questionado e ido contra a maré de sua própria cultura. Mas será mesmo que, se o sobrenatural não existir, os ateus podem realmente se auto-proclamar pensadores livres? Acredito que o caso contra a ideia de que os naturalistas são pensadores livres pode ser feito a partir de um forte argumento: O Argumento do Pensamento Livre contra o Naturalismo.

Ateísmo e Naturalismo

É importante, antes de começarmos, definir alguns termos que serão usados e esclarecer algumas coisas.

Em primeiro lugar, não estou usando o termo “naturalista” e o termo “ateu” como sinônimo. Todos os naturalistas são ateus, mas nem todos os ateus são naturalistas. Naturalistas são aqueles que crêem que apenas a natureza existe. Ou seja, não existe Deus, almas, anjos, ou qualquer coisa sobrenatural. Tecnicamente, um ateu pode crer em almas, anjos e coisas sobrenaturais, mas isso seria meio incoerente.

A palavra “ateu” vem do grego “a-theos” que significa “não-deus”. Em outras palavras, o ateísmo é a visão e mundo que nega a existência de Deus (não é a ausência de crença em Deus, é a crença na inexistência de Deus). Já o Naturalismo é a visão de mundo que afirma que apenas a natureza existe.

Definindo Livre Arbítrio

Segundo, o livre arbítrio que falo no texto é o livre arbítrio libertário. Podemos concordar com William Lane Craig e J. P. Moreland e definir o livre arbítrio como “a liberdade de responsabilidade moral e racional” [1] e dizer que “a liberdade necessária para o ato responsável não é compatível com o determinismo” [2].

Tim Stratton argumenta para uma visão mais forte de livre arbítrio. Ele diz que o “livre arbítrio libertário é, pelo menos, a habilidade de genuinamente escolher entre opções de acordo com a sua natureza” [3].

Independente da forma de livre arbítrio a se adotar, há um princípio básico que serve para praticamente todas as definições: A habilidade de escolher como agir e de fazer escolhas sem que haja algum agente determinante.

Livre Arbítrio ou Autonomia Máxima?

Nós não devemos fazer a confusão entre livre arbítrio e autonomia máxima. Quando alguém diz crer no livre arbítrio, ele não está dizendo que crê na capacidade de se escolher seu passado, genes, caráter, etc. Isso seria o que Alvin Plantinga chamou de autonomia máxima. Ele diz: “É óbvio que nós não temos autonomia máxima; nós não somos livres nesse sentido. De fato, nem é tão possível que nós sejamos livres nesse sentido” [4]. Simplesmente, só porque temos razões para escolher uma ação, isso não significa que essas razões causaram a ação. E entender o porquê de termos escolhido algo não significa que nós não somos capazes de fazer escolhas. Ou seja, só porque não podemos escolher nosso passado, genes e caráter, isso não implica que eles causem nossas ações. Podemos refletir sobre algo e ver qual a melhor escolha a se fazer em determinada ocasião [5].

Em suma, a autonomia máxima pode ser rejeitada, mas isso não implica que devemos rejeitar o tipo de livre arbítrio necessário para que haja responsabilidade moral e racional.

O Argumento do Pensamento Livre contra o Naturalismo

Com isso em mente, vamos ao que se chama de Argumento do Pensamento Livre, desenvolvido pelo filósofo Tim Stratton [6], que segue o seguinte silogismo:

ARGUMENTO DO PENSAMENTO LIVRE
Premissa 1 – Se o naturalismo for verdade, a alma humana imaterial não existe.
Premissa 2 – Se a alma não existe, o livre arbítrio libertário não existe.
Premissa 3 – Se o livre arbítrio libertário não existe, a racionalidade e o conhecimento não existem.
Premissa 4 – A racionalidade e o conhecimento existem.
Conclusão 1 – Portanto, o livre arbítrio libertário existe.
Conclusão 2 – Portanto, a alma existe.
Conclusão 3 – Portanto, o naturalismo é falso.

A premissa 1 não deve ser controversa. Se o naturalismo for verdade, então apenas a natureza existe. Consequentemente almas não existem. Por outro lado, a premissa 2 pode não parecer tão óbvia assim. Para explicar, pense no seguinte: Se tudo o que existe é a natureza, então tudo o que existe é governado por leis da natureza. Isso inclui a química e o funcionamento do seu cérebro. Em outras palavras, se a natureza é tudo o que existe, então tudo esta causalmente determinado pelas leis da natureza.

A premissa 3 segue das implicações da premissa 2. Se tudo é determinado, então não há como se raciocinar sobre nada. Ou seja, se a natureza é tudo o que existe, então tudo está causalmente determinado pelas leis da natureza, de modo que isso inclui nossos pensamentos e crenças. Tim Stratton explica que “se nossos pensamentos e crenças são forçados em nós, e nós não podemos escolher crenças melhores, então nós somos deixados simplesmente assumindo que nossas crenças determinadas são boas (sem falar em verdadeiras)” e ele conclui que “Portanto, nós nunca poderíamos afirmar racionalmente que nossas crenças são a inferência a uma melhor explicação – nós apenas podemos assumir isso” [7].

O que temos até aqui? Se a natureza é tudo o que existe, consequentemente tudo é determinado pelas leis da natureza. Isso implica que nossos pensamentos e crenças são determinados. Desse modo, usar a razão torna-se impossível, pois nada é raciocinado, deduzido ou inferido, pois tudo é determinado.

Se essas são as conseqüências do naturalismo, então o conhecimento torna-se impossível no naturalismo também. “Conhecimento” é definido como uma “crença verdadeira justificada”. Em outras palavras, o conhecimento é uma crença que tem alguma garantia para a sua verdade. Eu devo (a) crer que (b) algo é verdadeiro e (c) possuir alguma garantia para a verdade dessa crença. Dado que não se pode inferir nada no naturalismo, então não se pode inferir a verdade de uma crença a partir de qualquer coisa que seja.

E aqui vai o ponto chave afirmado na premissa 4: A racionalidade e o conhecimento existem. Se você negar isso, você deve ter alguma razão para dizer que você sabe que a racionalidade e o conhecimento não existem. O que, é claro, é auto-contraditório.

Como a racionalidade e o conhecimento existem, então se segue que o livre arbítrio libertário existe. Se o livre arbítrio libertário existe, então almas existem. E, se almas existem, então o naturalismo é falso.

Pode ser questionado: Mas como o livre arbítrio implica na existência da alma? Bom, se a natureza é determinada pelas suas leis, e nossos pensamentos são livres, então o livre arbítrio necessário para que haja raciocínio e conhecimento não pode vir de algo natural. Além disso, nossos pensamentos não são materiais. Sendo assim, a os pensamentos devem vir de algo imaterial. Como Stratton diz:

Já que pensamentos são imateriais, nós temos uma razão para pensar que uma mente/alma seja algo pensante que não é parte da natureza. […] essa coisa pensante não seria causalmente determinada pelas leis da química, física, mecânica quântica, ou qualquer outro processo ou coisa física ou material. A alma seria “livre” do determinismo de causa e efeito do universo material e, assim, a alma (você como um agente) pode livremente pensar. Quer dizer, seus pensamentos e crenças não são forçados em você via fatores externos além do seu controle. Você genuinamente e livremente escolhe suas crenças (pelo menos algumas delas) [8].

É importante dar atenção a dois pontos com relação ao livre arbítrio: O primeiro tem relação com o vídeo da neurocientista Claudia Feitosa chamado de “A Ilusão do Livre Arbítrio”, o segundo tem a ver com o determinismo.

O Livre Arbítrio é uma Ilusão?

A neurocientista Claudia Feitosa argumentou para uma espécie de determinismo com a seguinte história: Um homem, de repente, se tornou pedófilo. Depois de exames, foi descoberto um tumor em seu cérebro. Com a remoção do tumor, o homem perdeu os desejos pedófilos. Com o passar do tempo, o tumor voltou e junto os desejos pedófilos. E então, ela questiona: “Onde está o livre arbítrio?”

Existe uma grande falha na lógica dela, que é a pressuposição do naturalismo. Se o dualismo de substância (a interação corpo-alma) for verdade, então essa interação funciona como a de um pianista e seu piano: E houver algo errado com o piano, então o pianista tocará de forma errada. Do mesmo modo, se há algo errado com o “instrumento” usado pela alma, então a alma não conseguirá usá-lo de forma adequada. O erro de Claudia Feitosa é a pressuposição de que não há essa interação. Ou seja, é baseada em raciocínio circular.

O Problema Central do Determinismo

Podemos ir ainda além na lógica da neurocientista e dos deterministas. Se nossos atos, pensamentos e crenças são determinados, então isso inclui a crença no determinismo. Mas, se esse for o caso, então isso implica que não se pode inferir o determinismo a partir de nenhuma evidência ou argumento, deve-se simplesmente assumi-lo. Ou seja, qualquer razão para se crer no determinismo é determinada. Portanto, a crença no determinismo é auto-contraditória, já que, se o determinismo for verdade, ela mesma foi determinada, juntamente com as razões para se crer nela. Como disse William Lane Craig:

Há uma espécie de caráter vertiginoso e auto-destrutivo no determinismo. Pois se alguém passa a acreditar que o determinismo é verdadeiro, tem que acreditar que o motivo pelo qual ele veio a acreditar nisso é simplesmente porque ele estava determinado a fazê-lo. Ele não foi capaz de pesar os argumentos pró e contra e livremente fazer a sua decisão com base nisso. A diferença entre a pessoa que pesa os argumentos para o determinismo e o rejeita, e a pessoa que os pesa e aceita, é somente porque uma foi determinada por fatores causais fora de si mesmo para acreditar e outra para não acreditar. Quando você percebe que sua decisão de acreditar no determinismo foi determinada e que até mesmo sua presente realização desse fato agora é igualmente determinada, uma espécie de vertigem acontece, porque tudo o que você pensa, até mesmo este mesmo pensamento, está fora de seu controle. O determinismo poderia ser verdade; mas é muito difícil ver como isso poderia ser racionalmente afirmado, já que sua afirmação enfraquece a racionalidade de sua afirmação [9].

Conclusão

Parece que o ateu terá certa dificuldade em dizer que ele é um “livre pensador”. Se o ateísmo naturalista for verdade, então almas não existem. Sem as almas e o sobrenatural, então tudo o que existe é a natureza, na qual tudo é determinado pelas leis da natureza. Se tudo é determinado, isso inclui nossos pensamentos e nossas crenças. Se esse for o caso, então o raciocínio e o conhecimento são impossíveis. Como ambos existem (e rejeitá-los requer eles), então concluímos que o livre arbítrio existe. Sendo assim, a alma deve existir. Consequentemente, o ateísmo naturalista é falso.

Referências

[1] William Lane Craig, J. P. Moreland, Filosofia e cosmovisão cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 334.

[2] Ibid, p. 337.

[3] Free Thinking Ministries, What is Libertarian Free Will?, disponível em <http://freethinkingministries.com/what-is-libertarian-free-will>, acesso em 5/fev/2018.

[4] Books and Culture, Bait an Switch, disponível em <http://www.booksandculture.com/articles/2013/janfeb/bait-and-switch.html>, acesso em 5/fev/2018.

[5] Esses e outros pontos foram feitos por Michael Jones em Inspiring Philosophy, The Case for Free Will, disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=xCwY36a19aQ>, acesso em 5/fev/2018.

[6] Free Thinking Ministries, The Freethinking Argument in a Nutshell, disponível em <http://freethinkingministries.com/the-freethinking-argument-in-a-nutshell>, acesso em 5/fev/2018.

[7] Ibid.

[8] Free Thinking Ministries, How does a Soul Provide Free Will?, disponível em <http://freethinkingministries.com/qa-2-how-does-a-soul-provide-free-will>, acesso em 5/fev/2018.

[9] Reasonable Faith, Q&A #157 – Molinismo vs. Calvinismo: Preocupado com os Calvinistas, disponível em <https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/molinismo-vs.-calvinismo-preocupado-com-os-calvinistas>, acesso em 5/fev/2018.


Felipe Forti
Felipe Forti

Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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