A cosmovisão cristã é estruturada, em primeiro lugar, pelo conhecimento revelado de Deus. Não há outro ponto de partida para uma cosmovisão cristã autêntica — e não há substituto.

Um dos princípios mais importantes do pensamento cristão é o reconhecimento de que não existe uma posição de neutralidade intelectual. Nenhum ser humano é capaz de alcançar um processo de pensamento que não requeira pressupostos, suposições ou componentes intelectuais herdados. Todo pensamento humano requer alguma estrutura já pressuposta que defina a realidade e que explique, antes de tudo, como seja possível que possamos saber alguma coisa.

O processo de pensamento humano e a atividade intelectual tem sido, ela mesma, o foco de preocupação intelectual intensa. Na filosofia, o campo de estudo que é direcionado para a possibilidade do conhecimento humano é epistemologia. Os filósofos antigos estavam preocupados com o problema do conhecimento, mas este problema se torna ainda mais complexo e aguçado num mundo de diversidade intelectual. Na sequência do Iluminismo, o problema da epistemologia se estabeleceu no centro do pensamento filosófico.

Somos capazes de conhecer a verdade? A verdade é, em qualquer sentido objetivo, acessível a nós? Como é que pessoas diferentes, culturas diferentes, fés diferentes mantém tantas compreensões diferentes e fazem tantas afirmações irreconciliáveis ​​sobre a verdade? Será que a verdade realmente existe, afinal de contas? Se existe, podemos de fato conhece-la?

O problema do Conhecimento

À medida que o modernismo deu lugar ao pós-modernismo, o problema do conhecimento tornou-se ainda mais complexo. Muitos pensadores pós-modernos rejeitam a possibilidade de verdade objetiva e sugerem que toda a verdade não seja nada mais do que uma construção social e a aplicação de poder político. Entre alguns, o relativismo é a compreensão predominante da verdade. Entre outros, o reconhecimento do pluralismo intelectual leva à afirmação de que todos os apelos á verdade estejam presos dentro de premissas culturais e essas verdades só poderiam ser conhecidas através de lentes numa perspectiva distorcida.

Em outras palavras, o problema do conhecimento está na frente e no centro, enquanto pensamos sobre a responsabilidade de formar uma cosmovisão cristã e de amar a Deus com nossas mentes. A boa notícia é esta: assim como somos salvos somente pela graça, descobrimos que o ponto de partida para todo pensamento cristão na graça de Deus é demonstrado para nós através da Sua auto-revelação.

O Deus da Bíblia que se auto-revela

O ponto de partida para todo pensamento cristão genuíno é a existência do Deus da Bíblia e que se revela. O fundamento da cosmovisão cristã é o conhecimento do único e verdadeiro Deus vivo. O fato de que Deus existe separa a cosmovisão cristã de todas as outras e, desde o princípio, devemos afirmar que nosso conhecimento de Deus é totalmente dependente do dom da revelação divina.

O pensamento cristão não é redutível a um mero teísmo — uma crença na existência de um Deus pessoal. Ao contrário, um pensamento cristão autêntico se inicia com o conhecimento de que o único Deus verdadeiro é o Deus que se revelou para nós na Bíblia.

Como o falecido Carl F. H. Henry nos lembra, “a revelação divina é a fonte de toda a verdade, incluindo a verdade do Cristianismo; a razão é o instrumento para reconhecê-la; a Escritura é o seu princípio de verificação; consistência lógica é um teste negativo para a verdade, e a coerência é um teste subordinado. A tarefa da teologia cristã é mostrar o conteúdo da revelação bíblica como um todo ordenado”.

Essa mesma afirmação é verdadeira para todo pensamento cristão. O Cristianismo afirma a razão, mas a revelação divina é a fonte de toda verdade. Foi dada a nós a capacidade de conhecer, mas somos primeiro conhecidos pelo nosso Criador antes de virmos a conhecê-Lo por meio do seu dom de auto-revelação.

A Total Veracidade da Bíblia

Uma vez que a nossa dependência da Bíblia está clara, a importância de afirmar a inspiração total e a veracidade da Bíblia é aparente. Afirmar a inerrância e infalibilidade da Bíblia não é meramente uma questão de articular uma visão elevada das Escrituras. A afirmação da veracidade total da Bíblia é essencial para que os crentes tenham uma confiança adequada de que podemos saber o que Deus quer que nós saibamos. Além disso, nossa afirmação da infalibilidade das Escrituras é baseada, não só nas afirmações internas da Escritura, mas também no próprio caráter de Deus. O Deus que nos conheceu e que muito nos amou antes que nós viéssemos a conhecê-lo é o Deus em quem podemos confiar para nos dar uma revelação completamente confiável de si mesmo.

Ainda assim, a ignorância da verdade bíblica básica é galopante. Notavelmente, este é um problema tanto dentro como fora da igreja. Muitos membros da igreja parecem tão ignorantes do verdadeiro Deus vivo assim como o público em geral. Púlpitos demais estão em silêncio e fazendo concessões. O “deus comum” da crença popular é o único deus conhecido por muitas pessoas.

Como Christian Smith e seus colegas pesquisadores têm escrito, a fé de muita gente pode ser descrita como “um moralismo terapêutico deísta” — um sistema de crença que fornece a imagem de uma divindade confortável, não ameaçadora e que não é tão preocupada com o nosso comportamento, mas quer que sejamos felizes.

A precisão da cosmovisão cristã da era moderna pode ser traçada pela mudança significativa na doutrina de Deus. O Deus adorado por milhões de pessoas modernas é uma divindade reduzida a um tamanho pós-moderno.

O Único Deus Verdadeiro

O único Deus verdadeiro, o Deus que se revela na Bíblia, é um Deus que define a sua própria existência, define seus próprios termos, e as regras sobre a sua própria criação. A mera superficialidade de muita da “espiritualidade” moderna é um monumento à tentativa humana de roubar Deus da sua glória. A cosmovisão cristã não pode ser recuperada sem uma redescoberta profunda do conhecimento de Deus.

Inevitavelmente, o nosso conceito de Deus determina a nossa cosmovisão. A questão da existência ou não-existência de Deus é primária, assim como também é a questão do poder e do caráter de Deus. Os teólogos falam dos “atributos” de Deus, ou seja, das nuances reveladas da natureza de Deus. Se começarmos com o conceito certo de Deus, nossa cosmovisão será devidamente ajustada. Se o nosso conceito de Deus é sub-bíblico, nossa visão de mundo será sub-bíblica também.

Os atributos de Deus revelam seu poder e seu caráter. O Deus da Bíblia é onisciente e onipotente, e ele também é fiel, bom, paciente, amoroso, misericordioso, gracioso, majestoso, e justo.

Duas verdades centrais sobre Deus

No fundamento de todos os atributos concedidos a Deus nas Escrituras, estão duas grandes verdades que constituem pilares centrais para todo pensamento cristão. A primeira delas é a soberania total, final e não diluída de Deus. A soberania de Deus é o exercício da sua legítima autoridade. Sua onipotência, onisciência e onipresença são instrumentos da sua soberania.

O segundo destes grandes pilares é a santidade de Deus. Assim como a soberania é o melhor termo que inclui todos os atributos do poder de Deus, a santidade inclui todos os atributos morais atribuídos a Deus na Bíblia. Num primeiro nível, a santidade define Deus como a fonte de tudo o que é bom, verdadeiro, belo, amoroso, justo, justo e misericordioso. Em outras palavras, a santidade estabelece que Deus não é apenas o possuidor desses morais distintivos — ele também é a fonte definitiva deles. No fim de tudo, Deus não é tão definido por estes atributos morais tanto quanto ele os define pela exibição de seu caráter na Bíblia.

Em outras palavras, dizer que Deus é justo não quer dizer que ele passaria pela inspeção quando avaliado segundo as nossas próprias noções de justiça. Ao contrário, nós ganhamos uma compreensão adequada de justiça somente quando passamos a conhecer o Deus justo que se revela. Um dos problemas centrais do pensamento moderno é a tentativa de seres humanos em julgar Deus através das nossas próprias categorias de perfeição moral. Nossa responsabilidade mais apropriada seria de trazer as nossas categorias à submissão da realidade e da revelação de Deus.

A questão da existência ou não-existência de Deus é primária, assim como a questão do poder e do caráter de Deus. A cosmovisão cristã é estruturada, em primeiro lugar, pelo conhecimento revelado de Deus. E isso significa um conhecimento abrangente do Deus que se revela, o qual se define e não aceitará nenhum rival. Não há outro ponto de partida para a cosmovisão cristã do mundo — e não há substituto para ela.


Texto traduzido e adaptado de albertmohler.com (acessado em 11/01/2017, disponível também como cópia neste link).


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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