“Instinto de sobrevivência” é aquilo que se manifesta quando alguém é tomado pela imaginário — realista ou não — de estar sob constantes ameaças à sua integridade física. As atenções de alguém nesse estado, salvo raríssimas exceções, estarão voltadas puramente para seus objetos de amor: para ele mesmo, para seus possíveis familiares, para um ou outro amigo e, porque não, também para o animal doméstico. É acima de tudo, um estado de espírito fundamentalmente egoísta, não por deliberação própria, mas sim por sua imaginação estar inundada de ameaças à sobrevivência daquilo que ama. É a consequência esperada do “gene egoísta”, segundo a visão puramente darwinista e determinista da biologia a la Richard Dawkins. O poder de decisão individual do sujeito, por livre escolha, fica apagado, tornando-se ele um mero agente reativo — e não ativo — de seu meio. Em suma: reduziu-se de um homem para um animal qualquer.

Sobre a questão do Coronavírus, percebo dois aspectos de visões de mundo que, se não forem cuidadosamente discutidos e analisados, geram conflitos entre as pessoas, como já tem gerado. Particularmente me identifico e solidarizo com ambos, e minha sugestão é que todas as pessoas também se solidarizassem com ambos. Considerar apenas um deles, e suprimir o outro, não parece ser uma atitude sábia. E eles são os seguintes:

1) ameaça à saúde e à sobrevivência física das pessoas. Esta visão parece ser mantida mais por quem não deseja que a doença se espalhe e acometa a si e a outros;

2) ameaça à liberdade de pensamento das pessoas. Essa visão parece ser mantida por quem deseja que o estado mental próprio e o dos outros não seja dominado primordialmente por fatores exteriores, típicos do comportamento histérico (lembro-me bastante do filme 1984, onde todos os cidadãos ficam acometidos pela histeria em favor do grande irmão, num puro imaginário de guerra).

Me solidarizo com a primeira visão, pois é óbvio para todos que a saúde é o requisito básico da nossa existência e potencialidade corporais. Me solidarizo também com a segunda visão, pois é preciso garantir que ainda poderá existir discussão racional e livre sobre as ameaças exteriores: sejam elas do próprio vírus que nos acomete fisicamente, ou da possibilidade do uso da própria ameaça como arma política e espiritual, que nos acomete mentalmente.

A pergunta a ser feita é: o mundo material é tudo o que existe? Se sim, então não haveria sentido em se preocupar com a segunda visão, já que estados “mentais” não existiriam objetivamente: eles seriam “emergentes” a partir de toda a complexidade bioquímica cerebral e, portanto, estão sujeitos deterministicamente às leis físico-químicas do universo. Talvez essa pergunta seja a verdadeira raiz do conflito de visões que vivemos. Esse conflito existe enquanto sobrevivemos ao coronavírus, e também existirá depois que ele passar.


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

    2 replies to "Enquanto lutamos contra o Coronavírus…"

    • Azenildo Santos

      Considero a discussão muito pertinente, para este momento. O texto poderia explorar mais as duas visões. Na verdade, parece mais uma provocação à leitura. Assim, me senti, estimulado a ler mais. Aguardo mais sobre o tema! Parabéns pela provocação!

      • Saulo Reis

        Obrigado meu irmão. Sim, era mais uma provocação. Há muitas ramificações do tema. Creio q em breve postarei mais sobre isso, pois vamos ficar bastante tempo nessa quarentena

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