Desinformação

Se você não consegue derrotá-los, junte-se a eles. Eis o que a União Soviética fez para cercear a influência cristã anti-comunista. No novo livro chamado Desinformação, uma campanha secreta para desacreditar o Papa Pio XII é revelada. Além disso, os soviéticos tentaram influenciar a igreja com uma versão do cristianismo que fosse amigável ao marxismo.

A estratégia dos comunistas contra a igreja tinha três pilares: a ofensiva propagandística, a implantação de agentes de influência e a promoção da Teologia da Libertação, uma leitura anti-ocidental das Escrituras.

Desinformação foi escrito por Ion Mihai Pacepa, o desertor de maior hierarquia do bloco soviético, e Ronald Rychlak, professor de direito na Universidade do Mississippi (EUA). Um documentário também foi lançado, entitulado Disinformation: The Secret Strategy to Destroy the West. Eles revelam como um dos alvos prioritários das “medidas ativas” era o papa Pio XII.

“Os soviéticos entenderam que Pio XII era uma ameaça mortal à ideologia deles, menosprezando o comunismo tanto quanto o nazismo. Eles então embarcaram numa cruzada para destruir o papa e a sua reputação, escandalizar a sua congregação e fomentar a divisão entre as fés”, disse Rychlak na entrevista. A afirmação de que o Papa Pio XII era o “Papa de Hitler” tem origem numa transmissão da Radio Moscow em 1945, ou, em outras palavras, no aparato propagandístico soviético. Mais tarde, os soviéticos reagiram à sua morte em 1958 com uma nova campanha de desinformação. É bem mais fácil mentir sobre alguém quando ele não pode responder. Pacepa, que estava servindo à inteligência romena na época, diz que o premiê soviético Khrushchev aprovou o plano desenhado pela KGB em 1960. O plano tinha codinome “Seat-12”, e Pacepa disse ser o representante romeno para o plano. Agora, ele está detalhando publicamente seu envolvimento.

Revelar essa operação contra o Papa Pio XII não é importante apenas para a pesquisa histórica. Ela nos ensina uma lição sobre a efetividade de operações de influência que estão acontecendo hoje, sem sombra de dúvida. “Isso mostra que os especialistas em desinformação tem capacidade de nos convencer de qualquer coisa. Eles tomam uma pessoa amplamente conhecida por ser um herói dos judeus e outras vítimas – alguém que era desmerecido por Hitler – e convencem o mundo de que essa pessoa era um colaboradora virtual”, diz Rychlak.

O segundo pé da estratégia anti-igreja da KGB era influenciar aquelas instituições que eles não poderiam destruir, usando igrejas do Bloco Leste, especialmente a Igreja Ortodoxa Russa. O desertor da KGB Vasili Mitrokhin forneceu uma diretiva secreta de 1961 para infiltrar a Igreja Ortodoxa Russa. O objetivo era colocar agentes de influência que poderiam escantear figuras “reacionárias” e “sectárias” da igreja, que eram vistas como ameaças ao comunismo. Mitrokhin revelou uma reunião secreta de oficiais seniores de inteligência do Bloco Leste que aconteceu em Budapest, em julho de 1967. Dois oficiais da KGB deram instruções com respeito a “trabalhar contra o Vaticano; medidas para desacreditar o Vaticano e seus apoiadores; e medidas para exacerbar as diferenças dentro do Vaticano e as diferenças entre os países capitalistas e o Vaticano”.

Pacepa illustra o successo dessa operação com vários exemplos. Em janeiro de 2007, o recém nomeado arcebispo de Varsóvia (Polônia) teve de renunciar em meio a revelações de que ele teria sido um colaborador do serviço secreto polonês durante a Guerra Fria. Rychlak disse que os esforços soviéticos também se direcionavam a influenciar os protestantes. Em 1944, os soviéticos fundaram a All-Union Council of Evangelical Christian Baptists, hoje com o nome de Union of Evangelical Christian Baptists of Russia. O presidente do Institute on Religion and Democracy, Mark Tooley escreveu sobre o uso comunista do Conselho Mundial de Igrejas. Ele nota que centenas de igrejas protestantes e ortodoxas pertenciam ao Conselho enquanto serviam à linha soviética, e foram longe ao ponto de financiar guerrilhas marxistas.

O terceiro pé era a promoção de uma versão anti-capitalista e anti-ocidental do Cristianismo. Se a KGB não poderia eliminar o Cristianismo, então ela poderia manipulá-lo. A Teologia da Libertação nasceu. Pacepa se lembra de ter ouvido Khrushchev dizer, em 1959, “Religião é o ópio do povo, então, vamos dar a ele ópio”. Ele diz abertamente que a Teologia da Libertação foi “inventada pela KGB”. Ele tem conhecimento de primeira mão dos agentes secretos romenos sendo enviados à América Latina para espalhá-la por entre a massa religiosa.

No Vaticano, o Papa João Paulo II fez um comitê de estudo da Teologia da Libertação em 1984, documenta Pacepa num artigo da FrontPage Magazine de 2009. Ele conclui que essa teologia era uma mistura de “luta de classes” e “marxismo violento”. Robert D. Chapman escreve no International Journal of Intelligence and Counterintelligence:

“Sem dúvida, a doutrina da Teologia da Libertação é uma das mais estáveis e poderosas que surgiram da matriz da KGB. A doutrina suscita nos pobres e oprimidos o desejo de revolta e a formarem um governo comunista, não em nome de Marx ou Lênin, mas na continuação do trabalho de Jesus Cristo, um revolucionário que se opôs à discriminação social e econômica”.

Na entrevista com Rychlak, o co-autor de Desinformação, ele observou que o livro foi escrito hoje por uma razão. Estas estratégias ainda estão em curso. “Quando o nazismo foi extirpado da Alemanha, nós tínhamos painéis de desnazificação. Isto não aconteceu quando a União Soviética caiu. As mesmas pessoas foram deixadas no governo”, Rychlak disse. Ele continua: “Na verdade, a Rússia hoje é governada por um ex-agente da KGB, que se cercou de seus antigos parceiros. Nós estamos olhando para a primeira superpotência que é governada por agentes de inteligência”.

Pacepa está tentando alertar o Ocidente sobre seus inimigos, inclusive como ele, na sua vida anterior, foi explorado em suas fraquezas. Não é fácil admitir ter sido manipulado ou derrotado de alguma forma, mas o Ocidente precisa fazer isso, ou senão, tudo acontecerá outra vez.


Do original “How Soviet Intelligence Promoted Christian Marxism”, no site da Frontpage Magazine

Versões arquivadas dos links:
How Soviet Intelligence Promoted Christian Marxism
Moscow’s Assault on the Vatican
World Council of Churches: The KGB Connection
The Kremlin’s Religious Crusade
Liberation Theology and the KGB


Saulo Reis
Saulo Reis

Diretor do Acrópole da Fé Cristã. Engenheiro de Computação por profissão; professor de Matemática por paixão; Teólogo por amor a Deus.

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