Se Deus existe, então por que o mal existe?

epicuro

Um dos mais antigos argumentos contra a existência de Deus (e talvez o mais usado pelos ateus de internet hoje em dia) seja o Problema do Mal. Em suas várias formulações, a mais conhecida é a versão lógica do problema do mal, também conhecida como Paradoxo de Epicuro. Colocado de forma simples, o argumento questiona: Como pode um Deus todo poderoso e amoroso permitir o mal e o sofrimento? De outra forma, poderíamos colocar no seguinte silogismo:

Premissa 1 – Se Deus é todo poderoso, então ele pode acabar com o mal.
Premissa 2 – Se Deus é todo amoroso, então ele quer acabar com o mal.
Premissa 3 – O mal existe.
Conclusão – Portanto, Deus não existe.

Se a conclusão desse argumento estiver correta, então a existência de Deus se torna logicamente impossível, pois não poderia haver um mundo possível contendo tanto Deus quanto o mal.

Uma Falsa Dicotomia

O Paradoxo de Epicuro comete uma falácia de falsa dicotomia. Pois ele postula apenas duas alternativas: (a) Deus existe, ou (b) o mal existe. Porém, há uma série de alternativas. Por exemplo, pode haver (c) Deus existe, mas não é onipotente, ou (d) Deus existe, mas não é todo amoroso, ou ainda (e) Deus existe, mas não é todo poderoso e nem amoroso.

Mas embora essas alternativas sejam plausíveis, nenhuma delas faz jus ao Deus cristão e ao conceito Anselmiano de Deus como Maior Ser Concebível. Então, o que argumentarei nesse texto é (f) Deus existe, é todo poderoso, todo amoroso e possui razões morais suficientes para permitir o mal.

O Problema Lógico do Mal: Uma Refutação

Mas então, como deve o teísta responder a este argumento? Apesar da ampla utilização desse argumento no meio ateísta, talvez surpreenda o leitor saber que no meio acadêmico praticamente ninguém mais defende essa versão do problema do mal. Como Peter Van Inwagen colocou, “costumava ser muito dito que o mal era incompatível com a existência de Deus e que nenhum mundo possível continha Deus e o mal. Até onde posso dizer, essa tese não é mais defendida.” [1]

Mas o que levou ao abandono do Paradoxo de Epicuro? O pensamento dos mais influentes filósofos cristãos da atualidade como Alvin Plantinga, Peter Van Inwagen, William Lane Craig, o falecido William Alston e outros foi de grande contribuição para refutações bem elaboradas do problema do mal.

A Defesa do Livre Arbítrio

O ponto mais conhecido (e talvez mais subestimado) é a questão do livre arbítrio. Sendo você um libertário (não no sentido político) ou um compatibilista que crê na livre agência (crê na compatibilidade do livre arbítrio com o determinismo), a defesa do livre arbítrio facilmente resolve o problema do mal. Se Deus deseja agentes livres, então é claro que eles terão que ter a capacidade de fazer escolhas. O proponente do problema do mal poderia dizer que Deus, sendo onipotente, poderia criar seres livres que sempre fazem o bem. Porém, Plantinga argumentou corretamente contra esse ponto: A onipotência de Deus não significa que ele possa fazer aquilo que é logicamente impossível. E isso não é uma redefinição da onipotência de Deus. São Tomás de Aquino já definia dessa forma:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo. [2]

Mas o que há de logicamente impossível em seres livres sempre fazerem o bem? Simples: É logicamente impossível criar agentes livres sem a capacidade de fazer escolhas. O próprio conceito de liberdade pressupõe que hajam escolhas a serem feitas. Desse modo, mesmo que seja possível haver apenas o bem e a liberdade, a partir do momento que Deus quer seres livres ele não pode garantir que esses seres façam sempre a escolha certa. Plantinga explica que “segundo a defesa do livre-arbítrio, é possível que Deus seja onipotente e ao mesmo tempo incapaz de criar um mundo com bem moral sem criar um mundo com mal moral.” [3]

Se o ateu negar esse conceito de onipotência, então ele também resolve o problema do mal. Se Deus pode fazer o que é logicamente impossível, então a suposta incompatibilidade lógica entre Deus e o mal não impede que ele coexista com o mal. Para o ateu, há uma impossibilidade lógica entre as proposições “Deus existe” e “o mal existe”. Mas, se Deus pode fazer o que é logicamente impossível, então ele pode criar um mundo com o mal e coexistir com ele.

Se o ateu fizer uma negação da existência do livre arbítrio, então ele cai em uma contradição. Se tudo é determinado, isso inclui a crença do ateu de que o livre arbítrio não existe e de que tudo é determinado. Mas se esse é o caso, então por que crer no determinismo, se não passa de uma posição determinada, com razões determinadas e sem livre pensamento para inferir o determinismo como verdadeiro?

Além disso, a negação do livre arbítrio acaba com o problema do mal, pois sem a liberdade não há responsabilidade moral. Como então atribuir mal às ações humanas, se eles não podem escolher suas ações?

O que nós podemos notar aqui é que a Premissa 1 do Dilema de Epicuro (“Se Deus é todo poderoso, então ele pode acabar com o mal”) é falsa. Deus pode ser todo poderoso, mas incapaz de acabar com o mal moral por querer a liberdade humana.

E o Mal Natural?

A questão do mal moral pode ser resolvida facilmente com a defesa do livre arbítrio. Mas o que podemos dizer do mal natural? Catástrofes, tsunamis, terremotos, etc. Como explicar? A maioria dos cristãos diria que isso é efeito do pecado, e que originalmente o mundo não era assim. Porém, eu acho essa uma resposta muito simplória, e eu mesmo não creio que a Bíblia ensine isso.

O que podemos dizer é que Deus não é apenas onipotente e todo amoroso, mas também é onisciente. Sabendo o futuro, Deus pode ter razões morais o suficiente para permitir o mal. Nós somos extremamente limitados em nossas capacidades cognitivas, e não podemos dizer que Deus não permita o mal com algum bem maior em mente. Nós somos limitados em tempo e espaço, enquanto Deus sabe os efeitos de algum mal no futuro e/ou em outro lugar. Talvez um mal que entre na sua vida faça sentido no futuro, talvez em outro lugar e talvez com outra pessoa totalmente desconhecida. Pode ser o caso de apenas em um mundo com essa quantidade de mal que o maior número de pessoas venha a conhecer a Deus e ter a salvação.

Aqui também notamos que a Premissa 2 (Se Deus é todo amoroso, então ele quer acabar com o mal) não é necessariamente verdadeira. Deus pode permitir o mal tendo razões morais o bastante para isso.

O ateu deve demonstrar que existe algum mundo possível com a mesma quantidade de bem que esse, porém com menos mal. Ainda assim, esse deve ser um mundo com livre arbítrio e com o mesmo número (ou maior) de pessoas com o conhecimento de Deus para a salvação. Mas como o ateu pode demonstrar isso? Ele ficará apenas na especulação.

Como o Mal Prova a Existência de Deus?

Existem duas formas que o mal, na verdade, nos ajuda a provar a existência de Deus. Em primeiro lugar, podemos usar o argumento do pensamento livre contra o naturalismo. Se o mal moral existe, isso significa que o ser humano tem o livre arbítrio para fazer o mal. Se ele fosse determinado a fazer o mal, ele não teria responsabilidade moral por seus atos. Porém, se a natureza é tudo o que existe, então tudo é determinado pelas leis da natureza. Isso inclui nossos pensamentos, crenças e ações. Desse modo, o mal moral seria resultante de uma ação determinada e, assim, não haveria responsabilidade moral, apenas atos determinados.

Por outro lado, se há responsabilidade moral, então há livre arbítrio. Mas, se há livre arbítrio, então a natureza não é tudo o que existe (pois, se fosse, tudo seria determinado pelas leis da natureza). Deve haver uma alma imaterial que seja a responsável pela liberdade humana. (Eu aconselho uma leitura do texto Argumento do Pensamento Livre contra o Naturalismo para uma melhor compreensão.)

O Argumento do Mal para a Existência de Deus

Uma segunda forma de como o mal prova a existência de Deus é que a existência do mal prova a objetividade da moral. Qual é o parâmetro pelo qual um ateu julga um ato como mau? Seus efeitos? A dor das pessoas? A questão é: Por que se importar com isso? No fim, se não há um padrão moral objetivo, então não há nenhum padrão pelo qual dizemos que um ato é bom ou mau. Se Deus não existe, com que comparamos um ato para julgá-lo bom ou mau? Sem um Padrão de bondade não há como fazer um julgamento moral. E sem um Legislador Moral, não há lei moral objetiva. Em outras palavras, se Deus não existe, então valores e deveres morais objetivos não existem. Mas, o mal existe! Essa é a acusação do ateu! Portanto, valores e deveres morais objetivos existem. E, portanto, Deus existe.

O ateu não pode advogar, ao mesmo tempo, que o mal exista e que a moral é relativa, pois um exclui o outro. Talvez ninguém tenha sido tão preciso com relação ao problema do mal e suas implicações teístas quanto C. S. Lewis:

Meu argumento contra Deus era o de que o universo parecia injusto e cruel. No entanto, de onde eu tirara essa ideia de justo e injusto? Um homem não diz que uma linha é torta se não souber o que é uma linha reta. Com o que eu comparava o universo quando o chamava de injusto? [4]

Deus, por ser perfeitamente bom, é o Padrão de bondade e o Legislador Moral que determina os valores e deveres morais objetivos. O teísta tem a explicação pronta para a existência de verdades morais: A saber, a natureza de Deus. O ateu, vivendo em uma visão de mundo onde apenas átomos rearranjados existem, não pode fazer esses julgamentos e ser consistente com sua visão de mundo. Portanto, a partir do momento em que o ateu invoca o problema do mal, ele está refutando sua própria visão de mundo.

A Bíblia e o Mal

A Bíblia ainda afirma diversas coisas que fazem o problema do mal um argumento fraco contra o cristianismo. Em primeiro lugar, o propósito da vida, no cristianismo, não é “ser feliz”. Deus não cuida da gente como se fossemos bichinhos de estimação. O propósito da vida, no cristianismo, é conhecer a Deus. O que nos leva ao segundo ponto: Deus pode usar o mal para que pessoas venham a conhecer ele. Conhecer a Deus e ter a salvação eterna ao lado de Cristo com todo o amor.

Somado a isso, temos mais um coisa: O Apóstolo Paulo foi bem claro ao dizer que “os nossos sofrimentos atuais não podem ser comparados com a glória que em nós será revelada.” (Romanos 8:18) Conhecer Deus e viver pela eternidade com ele em uma pura relação de amor e felicidade pela eternidade nos fará ver essa vida aqui como apenas um milímetro em uma régua infinita.

Além disso, a doutrina da depravação total nos diz que não existe ser humano bom. No cristianismo, o ser humano é mau por natureza. Então, se Deus fosse acabar com o mal, ele teria que acabar comigo e com você também.

A ironia desse último ponto é que Deus constantemente tentou acabar com o mal no Antigo Testamento. Mesmo assim, os ateus constantemente dizem que Deus é mau por isso.

A teologia cristã nos faz admitir duas coisas: (1) O mal existe, e (2) eu sou parte desse mal. Com base nesses dois pontos, a Bíblia nos leva à uma única solução: Cristo. O filósofo católico Peter Kreeft colocou corretamente como Jesus Cristo soluciona o problema do sofrimento:

Desse modo, a resposta ao sofrimento […] simplesmente não é uma resposta. […] É Aquele que responde. É o próprio Jesus. Não é um punhado de palavras; é a Palavra. Não é um argumento filosófico bem costurado; é uma pessoa. A pessoa. A resposta ao sofrimento não pode ser simplesmente uma ideia abstrata, porque essa não é uma questão abstrata; é uma questão pessoal. Ela requer uma resposta pessoal. A resposta deve ser alguém; não apenas algo, porque a questão envolve alguém: “Deus, onde está você?” […] Jesus está la, sentado ao nosso lado nos lugares mais humildes. […] Estamos partidos? Ele foi partido, como pão, por nós. Somos desprezados? Ele foi desprezado e rejeitado pelos homens. Bradamos que não aguentamos mais? Ele foi um homem de dores e experimentado no sofrimento. As pessoas nos traem? Ele mesmo foi vendido pelo traidor. Nossos relacionamentos mais caros estão partidos Ele também amou e foi rejeitado. As pessoas se afastam de nós? Esconderam o rosto dele como o de um leproso. Desceria a todos os nossos infernos? Sim, ele o fez. […] Ele não somente ressurgiu dentre os mortos, mas mudou o significado da morte e, portanto, de todas as pequenas mortes – os sofrimentos que nos antecipam a morte e fazem parte dela [..] É aquele que gostamos de odiar e que escolheu nos devolver amor. […] Sabia que Jesus era mais que uma explicação. […]  Ele é o que realmente necessitamos. Se o seu amigo está doente e à morte, a coisa mais importante que ele quer não é uma explicação; quer que você se sente ao seu lado. Mais que qualquer coisa, ele está apavorado de ficar só. Deus não nos deixou sós. […] E por isso eu o amo. [5]

Conclusão

O antigo Paradoxo de Epicuro foi abandonado pela maioria dos filósofos atualmente. A defesa do livre arbítrio demonstrou que Deus e o mal podem coexistir. Outras versões do problema do mal podem ser usadas, como a versão probabilística, que diz que Deus e o mal não são logicamente incompatíveis, mas que o mal torna a existência de Deus improvável. Porém, nossas limitações cognitivas nos tornam seres impossibilitados de fazer tal julgamento. Além disso, a existência de mal objetivo aumenta a probabilidade de Deus existir, pois o mal implica em liberdade e em valores e deveres morais objetivos.

O ateu terá que demonstrar que (a) existe um mundo possível com Deus e o livre arbítrio que contenha uma menor quantidade ou nenhum mal, de modo que seja um mundo que Deus possa garantir isso, e (b) que há um mundo possível com a mesma quantidade de bem, mas menos mal, que produzam a mesma quantidade de conhecimento de Deus e salvação.

O que nós podemos dizer é que é logicamente impossível para Deus criar um mundo de agentes livres, sem a capacidade de fazer escolhas, de modo que Deus possa garantir que esses agentes sempre façam o bem. Também é impossível ao ateu, dadas suas limitações cognitivas, demonstrar que Deus não possui razões morais suficientes para permitir o mal.

O cristão pode viver em paz, com um Deus perfeitamente amoroso, poderoso e inteligente, e saber que todo o mal permitido por Deus tem um fim bom maior. O ateu, por outro lado, por descartar Deus apontando o mal no mundo não resolve o problema do mal: Ele apenas descarta a única esperança.


Referências

[1] Citado por William Lane Craig em seu debate com Corey G. Washington, disponível em <https://www.reasonablefaith.org/media/debates/does-god-exist-the-craig-washington-debate/>; acesso em 08/03/2018.

[2] São Tomás de Aquino, “Da Potência Divina”, em Suma Teológica, p. 313, disponível em <https://sumateologica.files.wordpress.com/2017/04/suma-teolc3b3gica.pdf>; acesso em 08/03/2018.

[3] Alvin Plantinga, Deus, a liberdade e o mal. São Paulo: Vida Nova, 2012, p. 50.

[4] Clive Staples Lewis, Cristianismo Puro e Simples. 3ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2014, p. 51.

[5] Peter Kreeft, “Primeira Objeção”, em Lee Strobel, Em defesa da fé, São Paulo: Vida, 2002, pp. 67-68.

Sobre Felipe Forti 12 Artigos
Formado em Design Gráfico pela FMU - Faculdades Metropolitanas Unidas e em Teatro pelo Teatro Escola Macunaíma. Atualmente cursa Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie e Dublagem na Dubrasil - Central da Dublagem. Pretendo fazer Teologia assim que possível. Sou apaixonado por Apologética Cristã e entendo que devo estar sempre preparado para fazer uma defesa a qualquer um que me pedir a razão da esperança que há em mim. (1 Pedro 3:15) Sou autor dos livros A Verdade que existe: Amando a Deus com todo o intelecto e A Gênese em Gênesis: Uma Refutação Bíblica do Criacionismo de Terra Jovem. Ambos podem ser comprados no site do Clube de Autores.

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